Entenda por que crase é tão importante

Entenda por que a crase é tão importante

O assunto de hoje está, muito provavelmente, entre as inadequações mais recorrentes da língua portuguesa. Crianças, jovens, adultos, não há quem não sofra para usá-la nas mais variadas situações de escrita. Blogs, diários, avaliações, até mesmo jornais ou redes sociais, poucos escapam de cometer algum deslize relacionado a ela. Muitos chegam até mesmo a desejar que ela seja abolida. Você sabia que até um projeto de lei chegou a ser criado, no ano de 2005, propondo a sua exclusão da gramática? Obviamente, houve enorme polêmica a respeito e tal projeto acabou sendo engavetado.

Acredite, ao contrário do que você pode imaginar, a crase não é um monstro. Depois que você a compreende, percebe que usá-la é bastante simples. Além disso, ela é importante e pode até resolver problemas de interpretação oriundos, por exemplo, de casos de ambiguidade.

Crase é uma palavra de raiz grega e significa “fusão”. Pois esta é justamente a sua característica: a fusão entre vogais idênticas. Normalmente, pode ser identificada na junção da preposição a (muitas vezes, com valor de “para”) com o artigo definido a (à). Também pode ser vista na contração entre a preposição a e pronomes demonstrativos como aquele ou aquela (àquele; àquela).

Compreendê-la é importante, já que ela pode indicar, por exemplo, a mudança de sentido de um verbo, conforme sua regência, ou até mesmo resolver algum problema de ambiguidade, como afirmamos anteriormente, e, assim, facilitar a interpretação e compreensão de textos.
Veja dois exemplos de regência verbal em que a crase se torna fundamental para definir o sentido que se deseja dar ao verbo.

Caso do verbo aspirar:
Ele aspira a essência criada. (Neste caso, note que a vogal em destaque é um artigo definido, o que torna o verbo transitivo direto e dá a ele o sentido de sorver, respirar.)
Ele aspira à diretoria da empresa. (Neste caso, observe que a vogal em destaque recebe o acento grave de crase, o que significa que houve uma junção de preposição e artigo definido. Dessa forma, o verbo aspirar se torna transitivo indireto e possui o sentido de almejar, desejar.)

Caso do verbo assistir:

Ela assiste a paciente. (Neste caso, a vogal é, também, um artigo definido, o que torna o verbo assistir transitivo direto e dá a ele o sentido de prestar assistência, cuidar.)

Ela assiste à TV. (Novamente, observamos a junção de uma preposição e um artigo, tornando o verbo transitivo indireto e dando a ele o sentido de ver, de presenciar.)

Verifique, agora, dois exemplos em que o uso do acento grave resolve o problema da ambiguidade.

Chegou a hora do almoço. (Está na hora de almoçar.)

Chegou à hora do almoço. (Alguém chegou a algum lugar durante o almoço.)

Consertamos a máquina. (Uma máquina foi consertada.)

Consertamos à máquina. (Foi usada uma máquina para a realização do conserto.)

Será que sem o acento diferencial você conseguiria afirmar com certeza o que se desejou dizer? Muito provavelmente, teria dificuldades para tal definição sem um contexto específico. Esta é mais uma prova de que a crase é muito útil em vários aspectos.

Ainda em dúvida sobre como usá-la? Deixamos algumas dicas para você se dar bem e não cometer mais aqueles deslizes tão comuns.

  • Já experimentou trocar o artigo feminino por um masculino? Se der certo, é porque a preposição forma crase. Entenda: Ele foi à reunião. Ele foi ao trabalho.

Viu só? Confirma a crase!

  • Substitua a preposição a pela preposição para. (Cuidado! Nem sempre dá certo!)

Ele foi para a palestra. Ele foi à palestra.

  • Quando se referir a lugares, há um macete. No lugar de ir, use o verbo voltar. Se, neste caso, a preposição usada for da, significa que o verbo ir deverá ser acompanhado por preposição com crase. Se a preposição for de, não se deve usá-la. Entenda:

Voltei da Itália. Vou à Itália.
Voltei de Roma. Vou a Roma.

  • E em expressão com horas determinadas? Use a crase sem medo! Veja o exemplo:

A reunião será às 12 horas.

  • Também há expressões femininas que pedem o uso:

Às vezes; à medida que; à proporção que; à vista; à toa; etc.

Então, a crase ainda parece um enigma a ser decifrado? Observar casos em que ela não deve ser usada pode ajudar na sua compreensão. Vamos verificar alguns deles para esclarecer o uso e a importância dessa junção no nosso dia a dia.
NUNCA ocorre a crase nos seguintes casos.

  • Antes de palavra masculina: Andou a cavalo. Fez o pagamento a prazo.
  • Antes de verbos: Ficava a falar sobre a importância da crase. Pôs-se a testar a nova receita.
  • Antes de pronomes (aqueles que não admitem artigo): Entregou o pacote a ela. Não me referi a isso.
  • Com palavras que se repetem: dia a dia; minuto a minuto.
  • Antes de substantivos e outras palavras flexionadas no plural: Referiu-se a reformas necessárias para o orçamento.

Viu como é fácil? Uma última dica está relacionada à (sabemos que tem crase aqui porque é possível substituir pela expressão “relacionada ao…”) indicação de distância. Você já deve ter visto, inúmeras vezes, placas de trânsito, especialmente em rodovias, com informações como: “Restaurante à 5 km” ou “Obras à 10 km”. Saiba que jamais devemos usar crase nestes casos, afinal a forma em destaque não é acompanhada de artigo definido feminino e isso desobriga totalmente o uso do acento grave.

Não tem mais como errar a crase, muito menos pensar que não tem serventia na língua portuguesa. Ela define sentidos, elimina ambiguidades inadequadas, ajuda na interpretação e resolve a nossa vida na hora da escrita de textos formais. Crase é, sim, tudo de bom!

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3 comentários

  1. Ótima dica professor!

  2. gostei explicou muito

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