Exercícios resolvidos de semântica

Quem me acompanha aqui no blog sabe que, há algum tempo, postei um texto bacana a respeito de semântica. Você lembra o que é? Resumidamente, trata do estudo do significado e de como ele é construído através da linguagem nas relações humanas. Sim, é uma explicação básica, por isso, se quiser saber mais a respeito, é muito simples, basta clicar aqui.

Hoje, quero concentrar a minha e a sua atenção em alguns exercícios que selecionei sobre o assunto. Não vou tratar de perguntas sobre os conceitos abordados em si, mas da semântica aplicada na interpretação de texto, com questões que se aproximam mais daquilo que você vai encarar no Enem, vestibular ou mesmo em concursos. 

Ao final de cada questão, deixarei o gabarito e um comentário para que você possa compreender de que modo foi possível chegar a cada resposta. Acredito que isso será de grande valia para seus estudos, especialmente no tocante à interpretação, área tão cara pelas principais bancas de testes seletivos do país. 

Vamos começar? Vem comigo!

  1. (Uece 2019)

Mulher proletária

Jorge de Lima

 

Mulher proletária — única fábrica

que o operário tem, (fabrica filhos)

tu

na tua superprodução de máquina humana

forneces anjos para o Senhor Jesus,

1forneces braços para o senhor burguês.

Mulher proletária,

o operário, teu proprietário

há de ver, há de ver:

a tua produção,

a tua superprodução,

ao contrário das máquinas burguesas,

salvar o teu proprietário.

LIMA Jorge de. Obra Completa (org. Afrânio Coutinho). Rio de Janeiro: Aguilar, 1958. 

 

As relações de sentido que o poeta estabelece no poema podem ser representadas por vários pares de oposição semântica de palavras, EXCETO por 

a) sujeito

b) libertação escravidão.   

c) igualdade

d) produção

Resposta: D

Observe que, no texto, não vemos oposição entre produção e riqueza. Ainda que o texto aborde o universo semântico do proletariado, o poeta se concentra na questão da desigualdade entre homens e mulheres. Além disso, mostra a maneira como elas ficam em posição subalterna no mundo burguês.

 

  1. (Enem PPL 2018)  

Para os chineses da dinastia Ming, talvez as favelas cariocas fossem lugares nobres e seguros: acreditava-se por lá, assim como em boa parte do Oriente, que os espíritos malévolos só viajam em linha reta. Em vielas sinuosas, portanto, estaríamos livres de assombrações malditas. Qualidades sobrenaturais não são as únicas razões para considerarmos as favelas um modelo urbano viável, merecedor de investimentos infraestruturais em escala maciça. Lugares com conhecidos e sérios problemas, elas podem ser também solução para uma série de desafios das cidades hoje. Contanto que não sejam encaradas com olhar pitoresco ou preconceituoso. As favelas são, afinal, produto direto do urbanismo moderno e sua história se confunde com a formação do Brasil.

CARVALHO, B. A favela e sua hora. Piauí, n. 67, abr. 2012.

 

Os enunciados que compõem os textos encadeiam-se por meio de elementos linguísticos que contribuem para construir diferentes relações de sentido. No trecho “Em vielas sinuosas, portanto, estaríamos livres de assombrações malditas”, o conector “portanto” estabelece a mesma relação semântica que ocorre em 

a) “[…] talvez as favelas cariocas fossem lugares nobres e seguros […].”   

b) “[…] acreditava-se por lá, assim como em boa parte do Oriente […].”   

c) “[…] elas podem ser também solução para uma série de desafios das cidades hoje.”    

d) “Contanto que não sejam encaradas com olhar pitoresco ou preconceituoso.”    

e) “As favelas são, afinal, produto direto do urbanismo moderno […].”   

 Resposta: E.

Nas alternativas a, b, c e d, a relação semântica gerada pelos conectores é de dúvida, comparação, inclusão e condição, respectivamente, na frase “As favelas são, afinal, produto direto do urbanismo moderno”, o conector “afinal” apresenta a mesma noção conclusiva de “portanto”. Dessa forma, é correta a opção E.  

 

  1. Pronum (em Mundo Educação)

Os sinônimos de exilado, sustentar e banimento são, respectivamente:

a) degradado – sustar – prescrição.

b) degredado – sustar – proscrição.

c) degredado – suster – proscrição.

d) degradado – suster – prescrição.

e) degradado – sustar – proscrição.

Resposta: C.

Degredado é alguém que é banido, exilado para longe para fora de seu lugar. Diferentemente de degradado, que significa deteriorado. Suster significa sustentar, enquanto susta se refere a interromper ou suspender algo. Proscrição também tem a ver com banimento, exílio, diferente de prescrição, palavra ligada ao sentido de norma, regra, de prescrever algo. 

 

  1. (Uece 2018)

Retrato do artista quando coisa

¹A maior riqueza

do homem

é sua incompletude.

Nesse ponto

sou abastado.

²Palavras que me aceitam

como sou

— eu não aceito.

³Não aguento ser apenas

um sujeito que abre

portas, que puxa

válvulas, que olha o

relógio, que compra pão

às 6 da tarde, que vai

lá fora, que aponta lápis,

que vê a uva etc. etc.

Perdoai. 4Mas eu

preciso ser Outros.

5Eu penso

renovar o homem

usando borboletas.

BARROS, Manoel. O retrato do Artista Quando Coisa. Rio de Janeiro: Record, 1998. 

 

Levando em conta as relações de sentido presentes no texto de Manoel de Barros acima, é correto afirmar que o conteúdo temático geral do poema se estabelece na seguinte oposição semântica: 

a) humanização versus coisificação.    

b) riqueza versus pobreza.    

c) ação versus inércia.    

d) grandeza versus pequenez.    

Resposta: A.

a) Correto. O eu lírico defende uma existência colaborativa aos ideais humanos, uma vez que não aceita uma vida de funcionalidades, levada de forma automática e banal, mas uma em que possa “renovar o homem / usando borboletas”.

b) Incorreto. O poema se pauta em valores existenciais, não apresentando preocupação com questões de ordem financeira.

c) Incorreto. O poema faz menção a uma série de ações, algumas funcionais e próprias do cotidiano, outras existenciais.

d) Incorreto. O poema trata de uma vida guiada por questões existenciais, sem juízo de valor relacionado à dimensão.

 

  1. (G1 – Ifal 2017)

Analise o texto abaixo para responder à(s) questão(ões).

Poesia não são rimas

mas letras que choram.

Poesia não são formas,

são gritos que se escrevem.

Poesia não é imaginada,

é o lamento da madrugada.

(ECO, Umberto)

 

Em relação aos versos “Poesia não são formas,” (3º verso) “são gritos que se escrevem.” (4º verso), pode-se inferir uma relação sintático-semântica de 

a) adição.   

b) adversidade.   

c) alternância.   

d) explicação.   

e) causalidade.   

Resposta: B.

Enquanto no 3º verso o eu lírico afirma algo que a poesia não é, no 4º verso ele traz a real característica que pertence à poesia. Assim, há uma relação de adversidade, isto é, de oposição entre os dois versos, podendo eles serem reescritos com uma conjunção adversativa: “Poesia não são formas, MAS são gritos que se escrevem”. A oposição aparece implicitamente. 

 

  1. (BRASIL ESCOLA)

Indique a alternativa na qual as palavras completam, corretamente, os espaços das frases abaixo.

O adultério foi _____________________ do Código Penal.

O congestionamento na Avenida Paulista paralisou o _____________________ de veículos por duas horas.

Ao beber e dirigir, o condutor está ___________________ as leis de trânsito.

Os condenados foram presos em ____________________ ao tentarem assaltar uma residência.

a) descriminado – tráfego – infringindo – flagrante

b) descriminado – tráfico – infringindo – fragrante

c) discriminado – tráfego – infligindo – fragrante

d) descriminado – tráfego – infligindo – flagrante

e) discriminado – tráfico – infligindo – fragrante.

Resposta: A.

As palavras em destaque na alternativa correta possuem significados diferentes, mas são muito parecidas na escrita e na pronúncia. Temos os seguintes pares: “descriminar (inocentar) e discriminar (distinguir, diferenciar); tráfico (contravenção) e tráfego (trânsito); infringir (transgredir a lei) e infligir (aplicar pena); flagrante (ato evidenciado no momento em que acontece) e fragrante (relativo a perfume, aroma).”

 

  1. (Mundo Educação)

Sobre a conotação e a denotação, podemos afirmar, EXCETO:

a) A conotação é utilizada principalmente na linguagem poética e na literatura, mas pode ser encontrada em gêneros textuais do cotidiano, como letras de músicas, anúncios publicitários, entre outros.

b) Uma palavra ou expressão é usada no sentido denotativo para representar diferentes significados dependendo do contexto da enunciação.

c) Os textos não literários devem preferir a denotação, pois essa tem como finalidade informar o receptor da mensagem de maneira clara e objetiva, livre de ambiguidades e metáforas.

d) A conotação e a denotação são as variações de significado que ocorrem no signo linguístico, que, por sua vez, é composto de um significante (letras e sons) e um significado (conceito, ideia).

Resposta: B.

A denotação apresenta a palavra em seu sentido literal, original. Ela não vai adaptar significados ao contexto, isso é feito pela conotação, que aplica novos sentidos a uma palavra de maneira figurativa.

 

  1. (Ueg 2016)

 CONJUGAÇÃO

Eu falo 

tu ouves 

ele cala.

 

Eu procuro 

tu indagas 

ele esconde. 

 

Eu planto 

tu adubas 

ele colhe. 

 

Eu ajunto 

tu conservas 

ele rouba.

 

Eu defendo 

tu combates 

ele entrega. 

 

Eu canto 

tu calas 

ele vaia. 

 

Eu escrevo 

tu me lês 

ele apaga.

SANT’ANNA, Affonso Romano de. Poesia reunida: 1965-1999. Porto Alegre: L&PM, 2004. p. 157-158

Tradicionalmente, são consideradas antônimas palavras cujos significados estão em oposição entre si. Considerando-se isso, verifica-se no poema “Conjugação”, de Affonso Romano de Sant’Anna, que  

a) o fato de usar versos curtos, com apenas duas ou três palavras, dificulta a compreensão das oposições lexicais e enfraquece a estética do poema.    

b) as oposições de sentido são apresentadas de forma dicotômica no poema, já que as oposições ocorrem apenas em agrupamentos bipolares.    

c) as palavras apresentam oposição de sentido de vários modos distintos, de acordo com o texto em que ocorrem e com seu contexto de uso.    

d) o uso de três verbos diferentes em cada estrofe do poema tem como meta semântica a construção de um significado econômico.    

Resposta: C.

O poema apresentado tem como base a oposição de sentidos de diversas naturezas, como se percebe pela leitura comparativa de estrofes como “Eu procuro / tu indagas / ele esconde” e “Eu canto / tu calas / ele vaia”. Percebe-se que ambas indicam ações complementares entre as duas primeiras pessoas em oposição à ação da 3ª pessoa; igualmente notam-se contextos diferentes a cada estrofe.  

 

  1. (Ime 2018)  

Das vantagens de ser bobo

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: “Estou fazendo. Estou pensando.” 

[…]

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar o excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

LISPECTOR, Clarice. Das vantagens de ser bobo. Disponível em: http://www.revistapazes.com/das-vantagens-de-ser-bobo/. Acesso em 10 de maio de 2017. Originalmente publicado no Jornal do Brasil em 12 de setembro de 1970. 

 

Na frase “só o bobo é capaz de excesso de amor” (referência 7), a semântica da palavra , nesse contexto, 

a) estabelece comparação entre bobos e espertos e funciona como adjetivo.   

b) evidencia a solidão dos que são bobos num mundo em que a quase totalidade das pessoas são espertas. Funciona como adjetivo.    

c) modifica o sentido do substantivo amor, sendo, por isso, um advérbio.    

d) incide sobre o adjetivo capaz, intensificando essa capacidade que apenas os bobos têm. Funciona, portanto, como advérbio.

   e) tem valor restritivo quanto ao mundo dos que são capazes de excesso de amor e funciona como um advérbio que se refere à palavra bobo.  

Resposta: E.

No contexto em destaque, o termo “só” exerce função de advérbio, ligado ao substantivo “bobo”. Apresenta valor restritivo, podendo ser substituído por apenas ou somente sem prejuízo do seu valor semântico. 

 

  1. (Ita 2018)

O Brasil será, em poucas décadas, um dos países com maior número de idosos do mundo, e precisa correr para poder atendê-los no que eles têm de melhor e mais saudável: o desejo de viver com independência e autonomia. […] O mantra da velhice no século XXI é “envelhecer no lugar”, o que os americanos chamam de aging in place. O conceito que guia novas políticas e negócios voltados para os longevos tem como principal objetivo fazer com que as pessoas consigam permanecer em casa o maior tempo possível, sem que, para isso, precisem de um familiar por perto. Não se trata de apologia da solidão, mas de encarar um dado da realidade contemporânea: as residências não abrigam mais três gerações sob o mesmo teto e boa parte dos idosos de hoje prefere, de fato, morar sozinha, mantendo-se dona do próprio nariz. 

Disponível em: <http://veja.abril.com.br/brasillenvelhecer-no-seculo-xxi/>, 18 mar. 2016. Adaptado. Acesso em: 10 ago. 17.

A conjunção em destaque na frase “Não se trata de apologia da solidão, mas de encarar um dado da realidade contemporânea: …” possui a função semântica de 

a) retificação.   

b) compensação.   

c) complementação.   

d) separação.   

e) acréscimo.   

Resposta: A.

O período “Não se trata de apologia da solidão, mas de encarar um dado da realidade contemporânea” é iniciado por uma negativa. A conjunção “mas” inicia uma oração que retifica a informação negada anteriormente, ou seja, corrige tal informação.  

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2 comentários

  1. vixiiiiiiiiiiiii…! apanhei em todas, meu nivel está mais no fundamental.pssss

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