O que é preconceito linguístico?

Hoje eu gostaria de aproveitar para fazer uma breve reflexão sobre um tema que, volta e meia, vem à tona nas discussões relativas ao uso da língua portuguesa: o preconceito linguístico. Você sabe o que é? Vou discorrer um pouco a respeito. 

Sobre a palavra “preconceito”, o dicionário Aurélio já nos diz muita coisa: “ideia preconcebida, intolerância […]”. Pensando em tal definição, já sabemos que o preconceito surge de um desconhecimento sobre algo ou alguém. É como se fizéssemos um julgamento antecipado, ou seja, sem conhecimento de causa.

Atualmente, é comum nos depararmos com todo tipo de preconceito, temos questões concernentes a raça, religião, gênero e tantas outras que poderíamos citar aqui. Contudo, há também um tipo de preconceito sobre o qual pouco se fala, a não ser que você seja estudante ou algum estudioso da língua. Estou me referindo ao preconceito linguístico, já mencionado no início desse post

Mas o que é, afinal, preconceito linguístico? Explicando de maneira bastante simplificada, posso dizer que é uma forma de discriminação social contra o indivíduo que não se comunica mediante as formas de prestígio da língua. Estou falando daquelas pessoas que não possuem conhecimento ou têm conhecimento limitado acerca da norma culta. Quanto menos usual é a norma na vida do cidadão, mais rebaixado ele é diante da sociedade. 

Por que tal atitude fica no âmbito social? Porque, direta ou indiretamente, o domínio ou não da norma culta tem muito a ver com educação e situação financeira. Obviamente, famílias mais pobres têm um acesso menor à educação por uma série de motivos que já conhecemos. Podemos imaginar, por exemplo, uma situação em que a criança deixa de frequentar a escola para trabalhar e complementar a renda da família. Essa criança não terá acesso aos estudos, por isso, não poderá dominar uma fala ou escrita de prestígio. 

O preconceito atinge também todas as áreas. Você já deve ter ouvido aquela história do “sotaque mais correto” no Brasil. Muitos apontam a fala de São Paulo como a melhor ou mesmo a de Curitiba que, em seu “leite quente”, pronuncia todas as letras “como deve ser”. Mas existe realmente um “jeito melhor” de se falar? Tal ideia acaba sendo difundida justamente pela relação preconceituosa que a sociedade costuma ter com quem não se aplica a um padrão. Você já deve ter percebido que, infelizmente, é assim para quase tudo na vida, certo?

Quem já não se pegou rindo de alguém que falou “menas” ou escreveu “com migo”? Quem já não discriminou ou mesmo praticou bullying contra aquele colega que veio do interior e pronunciou alguma palavra de forma “errada”? A verdade é que o preconceito linguístico é grave e excludente. 

Acreditar que nossa língua é um sistema “fechado”, que apresenta unidade e que, portanto, devemos falar conforme escrevemos é a maior forma de desconhecimento que se pode apresentar com relação à nossa própria identidade. Certamente, você já se deparou com situações em que precisou lançar mão da formalidade e outras em que não teve de se importar em usar o plural. Isso não é um absurdo como muitos pensam, mas uma prova de que a língua é rica, variada, viva! 

Veja bem, não estou afirmando que a norma padrão não é importante. Pelo contrário, é mais que necessário conhecê-la e saber usá-la em contextos nos quais ela deve se fazer presente. O que penso é que todos deveriam ter acesso a ela de maneira plena! Todos deveriam aprender a interpretar um texto de maneira eficaz, todos deveriam dominar a gramática, escrever bons textos, ter a chance de se comunicarem em todos os âmbitos possíveis. 

Se isso não acontece, é porque, infelizmente, a educação ainda não é direito de todos. Seja qual for o motivo, é fato que grande parte da população brasileira não tem acesso aos serviços básicos. Isso gera uma consequência terrível: o analfabetismo em seu sentido mais amplo ou mesmo o analfabetismo funcional, aquele que se reflete na pessoa que, apesar de ler, não consegue compreender textos simples, muito menos interpretá-los. 

Como vemos, há um problema estrutural que é bastante preocupante. Como combatê-lo? Muito difícil, não é mesmo? Mas podemos começar compreendendo que não existem jeitos melhores ou piores de falar, existem jeitos diferentes. Vamos pensar juntos: será que todos os cidadãos brasileiros dominam absolutamente todas as regras gramaticais existentes em nossa língua? Será que todos os cidadãos brasileiros falam como escrevem o tempo todo? Você sabe a resposta! Será que isso, portanto, nos dá o direito de agir com preconceito diante de pessoas que não tiveram a mesma oportunidade de educação que nós tivemos?

É fundamental que a gente pare de acreditar na língua apenas como um sistema ideal (aquele que está na gramática) e comece a entendê-la como uma estrutura real, que admite as mais variadas formas. Um exemplo do seu dinamismo está nos neologismos. Não estamos criando palavras novas o tempo todo de acordo com as nossas necessidades? O que dizer sobre as gírias e os jargões que circulam nas esferas sociais do nosso país? Só isso já mostra que a língua portuguesa não é estanque, ela admite diferentes possibilidades de uso. 

Compreender que podemos usar a norma padrão quando é necessário e que também é possível relaxar e esquecer as regras de vez em quando soa muito mais libertador, não é mesmo? Lembre-se daquilo que sempre falo: a língua é como um guarda-roupa, você não vai usar terno e gravata ou vestido de gala o tempo todo, certo?

O preconceito linguístico precisa ser combatido e isso deve começar por nós mesmos em nosso dia a dia. Como fazer? Comece perdendo o hábito de corrigir as pessoas o tempo todo, mostre o que é certo se achar necessário, mas sem ofender, sem rir, sem provocar. Isso é tão desnecessário, não acha? Não somos obrigados a concordar com certas inadequações, mas isso não nos dá o direito de menosprezar o outro. Assim como eu, como você, ele tem uma história de vida, é um indivíduo dotado de direitos. Falar “pior” não o torna menos capaz, menos inteligente, menos cidadão. 

Para finalizar, gostaria de indicar a leitura da obra Preconceito Linguístico, de Marcos Bagno. É um livro bastante esclarecedor, que aprofunda a reflexão que fiz aqui hoje. Uma leitura indispensável para quem quer entender como isso funciona e como afeta as relações dentro da sociedade. O autor fala sobre o preconceito como “fruto da ignorância” e da “manipulação ideológica”, apresenta mitos sobre a língua portuguesa nos quais muitos acreditam e acaba por desmistificá-los de forma muito interessante. Vale muito a leitura!

E você, o que pensa a respeito? Deixe sua opinião! Vamos conversar!


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